segunda-feira, 26 de julho de 2010

uma parte na outra parte

Ela olhava para seus mapas, tatuados em todo seu corpo, pele, palmas das mãos e olhos. Estava querendo um caminho para a próxima viagem. Ela até podia parecer perdida voltando-se para guias tão íntimos, mas sabia, às vezes não, que podia confiar nas trilhas já velhas de seus mapas. Ela também pressentia esse caminho, talvez um atalho, mas ele estava perto.

Não tinha experiência no amor, mas o procurava em todas as coisas. Talvez por isso tamanha sua felicidade em conseguir ver beleza em tudo, até nos latões que catava no lixo daquela praia pra transforma-los em simples e delicados artefatos. Também, pudera, suas mãos de menina sempre quiseram ter a habilidade das bordadeiras, artesãs, escritoras do colorido da vida. Punindo-se com humildade, cortou-se, entortou os dedos até tornar o feio belo. Mas ele já era bonito, pra ela sim, e só queria que os outros enxergassem dessa forma, sem precisar explicar, sem que eles entendessem, mas absorvessem para vivenciar o contato sublime com a própria percepção.

E então, naquela praia imunda e fétida, quando parou para recarregar sua matéria-prima, seu coração saltou e caiu aos pés, o que a fez correr desenfreadamente até ao homem que passou, balançando seus cabelos e vestido, até parar em frente ao mar e olhar, quase embriagado, para seus próprios pés.

E ela se aproximou dele como alguém que se aproxima de um espelho disforme, tentando identificar sua silhueta nos defeitos do reflexo. Ela sabia o que ele tava sentindo naquele momento. Só sentia, mas já era o bastante pra poder se aproximar daquele homem e o conhecer.

terça-feira, 22 de junho de 2010

pedaços primários

sei que nada disso aconteceu por acaso, porque simplesmente nada acontece sem um devir..
durante esse curto tempo, aspirei os mais reconditos de minha alma e revelei segredos do meu corpo, a mim mesma

não, quero passar esse tempo comigo, porque foi só comigo que ele, o tempo, brincou. essa brevidade de intensidades tem de ser breves pra gente não acostumar com o tempo, senão deixa de ser novidade, e passa a ser vício.. o que deixam as coisas iguais e nos mostram outras faces dessas coisas, que deixaram de ser intensas..e puras.

sei que esse meu vício é o de achar meus pedaços.. que sempre foram muito frágeis, mas que são pregados e despregados de uma estrutura forte e terrena, meu corpo. vi várias histórias, aforismos, pensamentos a respeito do corpo, até metáforas. mas não achei a minha, não acho meu corpo por completo. muito menos minha alma, que deve estar inteira e ainda não, e nunca, a percorri toda.

o sono vem leve, como a sombra do vento no meu quarto... e eu não consigo escrever sobre coisas bonitas, e coesas. sei que outro dia não vou querer ler essas passagens, mas sei que é necessario pra saber bem o que penso.. sem imaginar, fantasiar, idealizar. registrar esse momento, esse tempo de brevidades intensas que passei não por acaso, mas pra sentir isso tudo e desejar fechar um ciclo. pra poder dormir, pelo menos hoje, com meu próprio cansaço.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

tão queridas janelas

como é bom olhar tuas janelas, minhas tuas. elas me fazem querer voar entre os monumentos que na paisagem desenhada eu vejo. elas não se fecham, e sempre quando quero, movo a cortina esvoaçante, sinto aos poucos o vento que balança aqueles delicados panos, abro com os dois braços, num só movimento, as duas portinhas de vidro e madeira que deixam uma brisa violenta levantar meus cabelos e fechar meus olhos, pra no mesmo instante, encher meu semblante de uma luz solar forte, que ao invés de contrair, dilata minhas pupilas, porque é tão bom que só meus olhos, as minhas janelas, conseguem extrair o que está dentro de mim.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

porque tudo tem que ter um começo

não vou mentir que essa imagem de fundo pré-fabricada pro blogspot me inspira sempre, independente de sua finalidade ou origem. retalhos, mosaicos, mandalas, restos e reformas me encantam. gosto de saber que tudo é reinventado e transformado à vontade e necessidade do sujeito. se bem que muitas vezes gosto e vivo da indústria, seja lá qual for, mas gosto de misturá-la com outros tons, formatos, sabores ou cheiros.
minha estrada é de piçarra e os mateirais de que é feita tentam se segurar na passagem de alguém-móvel, mas ele ou ela ou isto acabam levantando a poeira, sujando-se ou se ferindo com os restos de vidro, pedra, âmbar, fóssil, areia, pétalas, pele. sim! muita pele. mas não faz mal, porque sua passagem também deixa rasgos, rastros, buracos, alimento, mapas e atalhos em mim.
sou estrada, e tenho um atalho para um belo jardim. começo a jogar pequenas migalhas de pão pra não me perder, mas um esperto passarinho que também gosta de massa, faz questão de bicar e saborear minhas migalhinhas.